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Nilson Xavier
Vivian
Vergilio
Nilson Xavier é um apaixonado por novelas.
Mas esta apreciação não surgiu de uma hora para outra; o catarinense já
era fascinado pela televisão desde pequeno, quando trocava as brincadeiras
por desenhos animados e séries americanas.
Aos dez anos de idade,
Xavier catalogava todo o elenco das novelas que assistia. Foi assim que
começou seu arquivo, que hoje está disponível no site
Teledramaturgia que busca resgatar a memória da telenovela
brasileira <www.teledramaturgia.com.br>.
A idéia do site
surgiu após conhecer o trabalho de Hugo Costa, o site Gilberto Braga On
Line, considerado por ele "bonito e completo". Xavier, anteriormente,
havia buscado mais material que tratasse de novelas, mas o que achava
geralmente não ia além do que ele tinha em suas anotações. Depois de pegar
a estrutura do site com Hugo Costa, agora seu amigo, e juntar com suas
informações de "anos e anos de novela" é que surgiu em 1999 o site que,
segundo ele em sua autobiografia, vingaria a telenovela.
Nessa
entrevista, ao Canal, Xavier fala um pouco sobre as transformações
que o gênero sofreu e provocou durante esses 50 anos.
Canal - Em que momento de sua
vida surgiu esta apreciação por novelas?
Nilson Xavier -
Desde pequeno a televisão de uma forma geral me fascinava. Eu preferia
ficar assistindo à TV ao invés de sair para brincar. Assistia aos
desenhos, seriados e às novelas também, claro.
Canal -
Qual é o imã presente na novela que tanto atrai o
telespectador?
Xavier - O "gancho" faz com que o
telespectador se prenda a uma história. Trata-se daquele suspense causado
ao final de cada capítulo, que aguça a curiosidade do telespectador e faz
com que ele queira ver o capítulo seguinte. A origem é folhetinesca, ou
seja, vem dos folhetins publicados nos antigos jornais. O formato foi
adotado pelas radionovelas, que por sua vez, foram levadas à televisão
através das telenovelas. Mas sem dúvida alguma, não há gancho que resista
sem uma boa história. Uma história que misture na dose certa, romance,
comédia, drama, aventura, suspense.
Canal - De Sua
Vida me Pertence (Tupi, 1951) à Chocolate com Pimenta, quais
foram as mudanças mais significativas ocorridas na história da novela
brasileira?
Xavier - Depois da popularização da
telenovela, nos anos 60, quando surgiram as novelas diárias, o grande
salto no gênero ocorreu com Beto Rockfeller (Tupi, 1968). Essa
novela representou o fim dos dramalhões importados de textos latinos que
nada tinham a ver com a realidade brasileira. Beto apresentou a
figura do anti-herói, mais humano e tipicamente brasileiro. Depois dessa
novela, o gênero se aperfeiçoou nos anos 70 e a fórmula é praticamente a
mesma desde os anos 80, com algumas poucas variações e
inovações.
Canal - Qual a influência das personagens
Clara e Rafaela, de Mulheres Apaixonadas (Globo, 2003), sobre o
telespectador?
Xavier - Influência? Nenhuma! Uma menina
que resolva ser lésbica porque foi "influenciada" pelas personagens deve
procurar um psicanalista! Não por causa de sua opção, mas por se deixar
influenciar! Seria o mesmo que um rapaz que acabou de assistir a um filme
violento sair por aí matando as pessoas. É um caso médico! A telenovela
pode, e deve, nos fazer refletir sobre o que acontece na sociedade. Mas
não muda opção, caráter, ética, moral, índole de ninguém.
Os
telespectadores gostaram das meninas porque as personagens foram
apresentadas de maneira carismática. É praticamente impossível não torcer
por elas, por causa da maneira como a trama é mostrada. O mesmo aconteceu
com os personagens de André Gonçalves e Lui Mendes em A Próxima
Vítima (Globo, 1995). Mas também tivemos o oposto, no caso das
lésbicas interpretadas por Christiane Torloni e Silvia Pfeifer em Torre
de Babel (Globo, 1998). O público sentiu-se afrontado diante de todo o
contexto da novela. E o autor teve que tirar aquelas personagens, pois não
estavam agradando. Portanto, o que define a aceitação, é a forma como é
mostrado o tema.
Canal - Qual o papel social que a novela
desempenha no Brasil?
Xavier - Seu principal papel como
veículo de massa que atinge a uma grande parte da população é chamar a
atenção da sociedade para o que acontece ao seu redor.
Mulheres
Apaixonadas tem esse mérito ao tratar o lesbianismo, o alcoolismo, o
câncer de mama, a violência doméstica contra a mulher, a maneira como a
sociedade trata os idosos, etc. Várias outras novelas já mostraram aos
brasileiros mais simples, o problema das crianças desaparecidas, a
clonagem humana, o movimento dos sem-terra, a eutanásia, o
hermafroditismo, barrigas de aluguel, transplante de coração, impunidade,
crimes do colarinho-branco, prostituição, corrupção na política, gravidez
precoce, aids, charlatanismo religioso, reforma agrária, drogas,
etc.
Canal - Em nosso país, qual segmento assiste mais às
novelas? Por quê?
Xavier - De maneira geral, da classe
média para baixo. Isso ocorre porque as classes mais altas têm acesso a
outros veículos de lazer, como TV a cabo, internet, etc. Mas todos, sem
distinção de classe social, são telespectadores de novelas, ativos ou
passivos, pois a telenovela faz parte de nossa cultura. Você pode até não
acompanhar, e não gostar do gênero. Mas acaba sabendo de alguma coisa por
intermédio dos outros, na rua, no trabalho, na escola,
etc.
Canal - Quanto nas novelas é dispensado para temas
que levam o telespectador a uma conscientização e
democratização?
Xavier - Geralmente (e isso acontece
muito mais na Globo) a novela do horário nobre é a que apresenta mais
condições para tratar de temas polêmicos e de reflexão da sociedade, por
ter maior audiência. As outras são reservadas aos romances e comédias, mas
também podem servir como pano de fundo para essas
discussões.
Canal - Em geral, as novelas têm refletido ou
refratado a realidade?
Xavier - Depende da novela.
Depende do papel que o autor quer que essa novela desempenhe, ou do tema
polêmico que o autor queira abordar e da forma como ele o aborda. Existem
obras que simplesmente não agregam nada. São puro entretenimento, quando
conseguem ser!
Mas existem novelas que tem esse poder de fazer com
que se discutam os problemas da sociedade, ainda que mostrados como pano
de fundo de um folhetim. Se a novela pode ter esse papel, se a mensagem é
bem passada, e recebida, isso vai depender muito do receptor e da forma
como a mensagem é transmitida.

criação: lisandro staut |
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